Pensar o mercado na cidade significa pensar o espaço urbano como um todo, e as inserções possíveis da esfera das trocas comerciais de formas diversas na cidade. O exercício proposto refletiu essa lógica da diversidade de formas tanto na própria visão do que é o mercado na cidade hoje quanto nas possibilidades diversas de intervenção neste sentido. A avaliação abaixo oferece uma crítica construtiva ao bom trabalho feito pelos grupos, com grandes potenciais de serem repensados, melhorados, complementados ou até mesmo implantados!
Seguindo a ordem das apresentações, o primeiro foi o grupo da Camila Ester e da Giovana, propondo uma ampla intervenção sobre a Praça Sete em Belo Horizonte, com túneis retirando todo o trânsito de veículos da superfície e dedicando 100% do espaço das ruas aos pedestres. A idéia das ruas exclusivas ao pedestre me agrada enormemente, apesar da escala da intervenção necessária para tal ser neste caso um tanto exagerada para os propósitos – em termos de planejamento (o que não retira nenhum mérito da proposta, no quadro dessa disciplina especificamente); além do que, o fato dos carros passarem por baixo apenas retira sua circulação de vista, não criando nenhum desincentivo ao seu uso, pelo contrário, resolve temporariamente o problema do trânsito e incentiva as pessoas a saírem de carro. A genial idéia de reativação dos bondes (que também foi pensada pelo grupo que propôs uma intervenção no Barro Preto) é um excelente complemento à diretriz de se fortalecer o mercado ao ar livre, e de criar uma ambiência propícia para tal, fazendo renascer uma pequena marca registrada da BH antiga, da rua da Bahia e do viaduto Santa Tereza dos poetas da geração de Drummond e depois de Fernando Sabino e companhia. Outro destaque é a diretriz de arborização em larga escala proposta pelo grupo, que também contribui para este ambiente urbano onde a fruição da própria rua, tornada espaço de convívio e encontro (e não somente de passagem, onde ela é encarada como obstáculo), se torna um objetivo central do desenho urbano de hoje – justamente em função da urgência de se resgatar o espaço público do predomínio atual do trinômio automóvel – shopping Center – grande condomínio residencial hermético (seja fora da cidade ou não). A referência à rua 24 horas de Curitiba é bastante interessante, mas não leva em conta que ela (que se parece bastante com as passagens parisienses mostradas na aula sobre o mercado, que são as origens do Shopping Center moderno) cria um espaço monofuncional, mesmo gerando movimento em seu entorno, retira a oportunidade do comércio se localizar de forma mais pulverizada nas ruas junto ao uso residencial e institucional. A única ressalva a respeito da proposta é que o mercado não aparece das três formas que o exercício pede (não foram pensados os 3 usos mistos nas edificações).
A segunda intervenção proposta foi a do grupo do Romeu e do Bobes, na área do entorno da esquina da Av. João Pinheiro com a Rua Aimorés. É uma excelente proposta, bastante pertinente no momento, tendo em vista a transformação que o circuito cultural da Pça da Liberdade vai gerar em seu entorno, e o fato de que hoje esta é uma área que fica bastante esvaziada nos domingos, pedindo para ser apropriada justamente nos termos propostos pelo exercício (considerando que o esvaziamento é muito ligado à ausência de usos diversificados naquela área – ou à total predominância de um uso sobre os demais, como é o caso do centro do Rio de Janeiro, que é tão completamente dominado pelo uso institucional, governamental e de escritórios que só funcionam durante a semana que os demais usos (com exceção do cultural, mas que é muito pontual) ficam completamente sujeitos ao movimento gerado de segunda a sexta por empregados destas atividades. Este tipo de intervenção, que é uma espécie de Shopping Center ao ar livre, com ruelas sem carros entre os espaços comerciais com usos culturais diversos (espaços para shows etc.) tem sido adotada em algumas cidades européias – como é o caso da Potsdamer Platz em Berlim ou o Canary Wharf em Londres, que são áreas que abrigam projetos de grandes arquitetos e que geram um montante mais ou menos semelhante de renda imobiliária e de críticas aos seus incorporadores (devido aos efeitos de expulsão dos antigos moradores em função da valorização do entorno – a chamada gentrificação). A inserção da Praça da Boa Viagem no projeto cria um elemento adicional na sua apropriação pela população, também contando positivamente. Se os edifícios propostos pela intervenção forem de fato destinados a usos diversos (escritórios e apartamentos) e a questão da mobilidade for abordada de forma inteligente esta seria uma área interessantíssima, contribuindo muito com esta zona de transição entre o centro e a Savassi na qual ela se insere.
O diagrama apresentado pelo grupo da Ana Caroline propõe uma intervenção numa área vizinha ao Centro Administrativo de Minas Gerais (CAMG) em construção, justificada pelo crescimento em curso dessa região. Seria um tipo de ocupação muito positiva na região, que anuncia um descompasso enorme entre o CAMG e seu entorno, bastante ocupado por áreas de urbanização mais precária – ajudando a criar um balanço na região. O projeto traria usos diversos para a área, servidos por um bonde e uma ciclovia, e abrigaria um shopping, uma cooperativa e alguns conjuntos habitacionais. Apesar da diversificação de usos se manifestar na escala do projeto como um todo, falta uma pulverização em menor escala (da edificação individual, da rua e da quadra) desta mistura de usos, o que por sua vez criaria um espaço mais amigável ao pedestre – o que é o extremo oposto do CAMG, um espaço hermético, cercado por áreas verdes por um lado e por uma via de alta velocidade por outro (o que contribuiria com o balanço citado acima). A quebra com a malha ortogonal proposta pelo grupo é muito interessante (estética e ambientalmente, criando ruas mais confortáveis), e é um ponto pouco explorado de forma geral, em função dos custos infra-estruturais mais altos.
O quarto grupo (da Vivianne e do Samuel Coutinho) a apresentar foi a excelente idéia do bairro criado “do zero”, num formato em círculo, com uma praça central (que é genial, por criar um espaço de convivência que abrange toda a área) e usos diversos espalhados ao longo de suas quadras. Assim como o grupo anterior, rompe-se com a mesmice da malha ortogonal, mas a primeira observação a se fazer aqui é que as quadras ficaram muito compridas, sobretudo nas porções exteriores do círculo. Este é um ponto que a Jane Jacobs reitera em seu livro “Morte e vida das grandes cidades”, que quadras menores são sempre benvindas, por gerarem maiores possibilidades de caminhos alternativos (e mais curtos para aqueles que precisam chegar até a metade da quadra), e por criarem esquinas adicionais, que são pontos de encontro entre fluxos diversos. Gostei muito da idéia de se pensar em estimativas de população a partir das tipologias de ocupação (talvez se o Lúcio Costa tivesse feito esse exercício o problema das cidades satélite em Brasília seria um pouco menos grave). Esta é uma proposta que se destaca por ser bastante completa (considera a auto-suficiência que o exercício pedia) e coerente em suas partes.
A idéia do Mateus pensa o mercado na cidade de forma distinta dos demais grupos. Cria um esquema de compras via internet pensando as necessidades da cidade como um todo (“atende muito mais que 16 quadras”), e considera a inserção do mercado de forma descentralizada na cidade a partir de um sistema de distribuição de bens e serviços aos domicílios (entrega ou busca). É um exercício de se pensar o consumo e a distribuição espalhados no espaço urbano (de forma bastante sustentável e considerando o transporte de forma indireta) sem necessariamente pensar e planejar a concretude deste espaço como o exercício propunha. Não por isso deixa de ser uma intervenção urbanística, apesar de não propor alterações no ambiente construído da cidade.
A excelente proposta do bairro da Graça (grupo da Luana Lima) parte do pressuposto de que trata-se de um bairro antigo, com uma grande população de idosos e muito pouco comércio. A partir desta avaliação inicial, propõe uma série de usos não-residenciais espalhados numa área pré-determinada para tal, sendo que estes usos são espalhados por esta região e interligados através de um traçado de ônibus também pensado de forma integrada com eles. O grupo inova ao propor uma forma de modulação flexível para mercados, que mudam de acordo com o uso pensado, e são integrados a bicicletários. Um diagnóstico inicial preciso para uma proposta simples, concisa e ajustada às necessidades da população local.
A idéia de diversificar o espaço do mercado no Barro Preto na intervenção do grupo da Carolina Magalhães pretende fazer com que a área deixe de se concentrar no setor da moda. O acerto em inserir outros usos de outros setores do próprio comércio se deve ao fato de que outros públicos serão atraídos à região, gerando inclusive uma complementaridade entre a moda e estes novos mercados consumidores (nos serviços, ou em restaurantes, por exemplo – como ocorre nos próprios Shoppings, de forma positiva), ou seja, o consumidor não vai mais à área em busca somente de um produto específico. Como colocado no primeiro grupo, a idéia de trazer o bondinho de volta à cena é excelente, devolvendo parte da ambiência do que era a cidade em meados do século passado de forma mesclada a sua lógica atual. Os toldos cobrindo as calçadas são outro aspecto interessante, que geralmente é aplicado de forma desorganizada, sem uma adequação entre os lojistas individuais, e que padronizado gera um outro efeito estético interessante e que contribui também para tornar estes locais mais agradáveis (assim como a arborização).
A proposta do grupo do Anderson e do Carlos, inspirada na rodoviária de Goiânia, traz a idéia de um rodo-shopping, pensado em função da eventual mudança da rodoviária de Belo Horizonte para o Calafate. O transporte é pensado de uma forma muito interessante, através do acesso direto ao metrô e a ciclovias que passariam pelo local (com o apoio de bicicletários), e o uso comercial é pensado tendo em vista a quantidade de usuários que serão atraídos ao local. Apesar do aspecto positivo de se unir o uso comercial ao uso direto da rodoviária, trata-se de um espaço que interage pouco com seu entorno, e onde o uso residencial está completamente ausente (contribuindo para concentrar o uso residencial em pequenas porções da cidade), o que não cria a forma de ambiência de usos diversificados proposto pelo exercício.
O vídeo feito pelo grupo da Carolina Sobrinho no Mercado Novo propõe uma leitura subjetiva de um mercado de Belo Horizonte em decadência. Faz um diagnóstico sensorial do que é o espaço do mercado na cidade, e sua multiplicidade de eventos, de sons, de imagens, de experiências (no caso específico do Mercado Novo trata-se do extremo oposto da pasteurização destes elementos que ocorre no vizinho Diamond Mall – no vídeo o que se percebe é um espaço caótico, de apropriações e experiências diversas, longe de ser enquadrado numa ordem estética pré-determinada). Na minha percepção o vídeo traz consigo uma proposta (não declarada) ligada ao grande potencial daquele local. Cartesianamente falando, fica faltando justamente este exercício objetivo na forma de uma proposta, que seria interessantíssimo a partir do bom retrato subjetivo tirado pelo vídeo, e bastante complementar a este.
Há 14 anos
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